A Praia Terapêutica
No século XIX o banho de mar era tomado com fins terapêuticos. A hidroterapia marítima estava em acelerado desenvolvimento, fruto da sua divulgação através de várias obras publicadas em Inglaterra, Alemanha e França, e em artigos publicados em dicionários de medicina e jornais científicos. Em Portugal a investigação neste campo era escassa e resumia-se a dois opúsculos e dois livros.
Para uma boa terapia marítima tornava-se imperioso a conjugação de três factores: a água do mar, a atmosfera marítima e as condições climatéricas e topográficas da praia. De acordo com os especialistas, a água do mar exercia uma acção fisiológica sobre o organismo, resultante da sua temperatura, dos seus princípios químicos e da intensidade da força sobre a superfície externa do corpo. Quanto à temperatura, era utilizada uma classificação que variava entre a água fria, temperada e quente. A praia de Espinho, com uma temperatura que poucas vezes ultrapassava os 20º, incluía-se no grupo das que eram banhadas por águas frias.
À atmosfera marítima ou ao ar do mar atribuíam-se múltiplos efeitos preventivos de certas doenças, principalmente ao nível dos órgãos respiratórios e da pele. Segundo os médicos da época, os benefícios do ar marítimo dependiam da sua maior pressão e temperatura, da maior ou menor quantidade de princípios salinos que continha e da maior ou menor velocidade e direcção das suas correntes. Uma maior pressão atmosférica equivaleria a uma maior dilatação dos pulmões o que se traduzia numa maior absorção de oxigénio. O mesmo acontecia com os princípios salinos que existem na atmosfera da praia - quanto mais elementos salinos entrarem na composição do seu ar, maiores serão os efeitos tonificantes sobre a pele, superfície interna dos órgãos respiratórios e, consequentemente, de todo o organismo. O contacto com o ar do mar era aconselhado às "pessoas fracas, molles, apathicas, de constituição lymphatica" e desaconselhado para os "tísicos do pulmão ou da larynge", mas era sobretudo na infância que o ar do mar se tornava "particularmente salutar".
Sobre os benefícios da brisa marítima da praia de Espinho, o jornalista espanhol D. Pedro Gazapo escrevia em 1916 que "El pintoresco Espinho es sano, sanissimo, no cede a ninguna otra playa su puesto de honor; y hablen por nosotros los incontables jóvenes de ambos os sexos, los innúmeros niños que alli llegan todos los años desmedrados, anémicos, pobres de glóbulos, rojos, y tras una temporada que debiera ser más larga que lo acostumbrado por la colonia española, a sua tierra vuelven fuertes, vigorosos y con sobradas reservas orgánicas para defenderse de todos los gérmenes patógeneos, y mui especialmente de ese monstruo que es azote de la humanidad y para suas victimas elige, casi siempre lo más querido, lo más adorable, la ensoñadora juventud".
Ramalho Ortigão chamava a atenção do leitor para o facto de a água do mar como bebida não ser explorada pelos médicos portugueses, nomeadamente como medicamento alterante e purgativo, no tratamento dos problemas linfáticos e escrofulosos e ainda nas enfermidades uterinas. Na opinião de alguns médicos, a hidroterapia marítima, sendo usada correctamente, era um excelente meio higiénico e terapêutico. O problema é que em Portugal fazia-se um mau uso dessa medicação. As pessoasde estatuto social mais elevado deslocavam-se para as estâncias balneares não "para robustecer o organismo ou debellar enfermidades, mas para fazer exactamente o contrário - depauperar o organismo e contrahir doenças".
