História de Espinho

Thursday, April 07, 2005

A Praia Terapêutica

No século XIX o banho de mar era tomado com fins terapêuticos. A hidroterapia marítima estava em acelerado desenvolvimento, fruto da sua divulgação através de várias obras publicadas em Inglaterra, Alemanha e França, e em artigos publicados em dicionários de medicina e jornais científicos. Em Portugal a investigação neste campo era escassa e resumia-se a dois opúsculos e dois livros.
Para uma boa terapia marítima tornava-se imperioso a conjugação de três factores: a água do mar, a atmosfera marítima e as condições climatéricas e topográficas da praia. De acordo com os especialistas, a água do mar exercia uma acção fisiológica sobre o organismo, resultante da sua temperatura, dos seus princípios químicos e da intensidade da força sobre a superfície externa do corpo. Quanto à temperatura, era utilizada uma classificação que variava entre a água fria, temperada e quente. A praia de Espinho, com uma temperatura que poucas vezes ultrapassava os 20º, incluía-se no grupo das que eram banhadas por águas frias.
À atmosfera marítima ou ao ar do mar atribuíam-se múltiplos efeitos preventivos de certas doenças, principalmente ao nível dos órgãos respiratórios e da pele. Segundo os médicos da época, os benefícios do ar marítimo dependiam da sua maior pressão e temperatura, da maior ou menor quantidade de princípios salinos que continha e da maior ou menor velocidade e direcção das suas correntes. Uma maior pressão atmosférica equivaleria a uma maior dilatação dos pulmões o que se traduzia numa maior absorção de oxigénio. O mesmo acontecia com os princípios salinos que existem na atmosfera da praia - quanto mais elementos salinos entrarem na composição do seu ar, maiores serão os efeitos tonificantes sobre a pele, superfície interna dos órgãos respiratórios e, consequentemente, de todo o organismo. O contacto com o ar do mar era aconselhado às "pessoas fracas, molles, apathicas, de constituição lymphatica" e desaconselhado para os "tísicos do pulmão ou da larynge", mas era sobretudo na infância que o ar do mar se tornava "particularmente salutar".
Sobre os benefícios da brisa marítima da praia de Espinho, o jornalista espanhol D. Pedro Gazapo escrevia em 1916 que "El pintoresco Espinho es sano, sanissimo, no cede a ninguna otra playa su puesto de honor; y hablen por nosotros los incontables jóvenes de ambos os sexos, los innúmeros niños que alli llegan todos los años desmedrados, anémicos, pobres de glóbulos, rojos, y tras una temporada que debiera ser más larga que lo acostumbrado por la colonia española, a sua tierra vuelven fuertes, vigorosos y con sobradas reservas orgánicas para defenderse de todos los gérmenes patógeneos, y mui especialmente de ese monstruo que es azote de la humanidad y para suas victimas elige, casi siempre lo más querido, lo más adorable, la ensoñadora juventud".
Ramalho Ortigão chamava a atenção do leitor para o facto de a água do mar como bebida não ser explorada pelos médicos portugueses, nomeadamente como medicamento alterante e purgativo, no tratamento dos problemas linfáticos e escrofulosos e ainda nas enfermidades uterinas. Na opinião de alguns médicos, a hidroterapia marítima, sendo usada correctamente, era um excelente meio higiénico e terapêutico. O problema é que em Portugal fazia-se um mau uso dessa medicação. As pessoasde estatuto social mais elevado deslocavam-se para as estâncias balneares não "para robustecer o organismo ou debellar enfermidades, mas para fazer exactamente o contrário - depauperar o organismo e contrahir doenças".

Friday, January 21, 2005

Enquadramento Administrativo de Espinho

A referência a Espinho como uma das principais estâncias balneares do país só surge a partir da segunda metade do século XIX. Até 1855, a Costa de Espinho pertencia à freguesia de Ovar, passando por Decreto de 24 de Outubro desse ano a fazer parte da freguesia de Anta, Concelho da Feira, onde se manteve até 23 de Maio de 1889, data da criação da Paróquia de Espinho. O decreto-lei de 30 de Dezembro de 1890, publicado no Diário de Governo de 5 de Janeiro de 1891, determinou a criação da freguesia civil, pondo fim aos vínculos eclesiástico e administrativo que o ligavam a freguesia e paróquia de Anta.
O desejo de independência concelhia começou a ganhara contornos a partir de 1889, numa altura em que as tentativas de modernização da Praia que o município da Feira se propôs concretizar não tiveram efeitos práticos. A inexistência de infraestruturas e a má qualidade dos serviços criava graves problemas a uma população residente que não parava de aumentar, principalmente a partir de 1894, com a implantação da fábrica de conservas Brandão, Gomes & C.ª. Segundo o jornal Gazeta de Espinho, a Praia, a não ser nos meses de Julho a Outubro, não tinha polícia, nem um candieiro de iluminação pública. A água faltava no Verão e havia dez anos que a Câmara da Feira não mandava reparar nem um metro quadrado de rua. Outra das grandes falhas, residia na inexistência de uma escola de instrução primária.
O processo de autonomia originou graves conflitos com a autoridade da Vila da Feira e, a esse propósito, o jornal O Século, seis meses antes da promulgação do Decreto que criou o novo Concelho, salientava a ideia da autonomia administrativa que dia-a-dia ganhava terreno, "devendo em breve tornar-se numa realidade a aspiração legítima dos habitantes daquela deliciosa praia, que dispunha de elementos excepcionais para manter a sua emancipação. A freguesia de Espinho há muito que devia ser a sede concelhia, atendendo não só à sua população, como também á sua importância industrial e à sua óptima situação topográfica. De todas as freguesias do concelho da Feira, Espinho era a que maiores receitas gerava, devido às actividades do comércio e indústria. Em 1899, a povoação contava com perto de 4.000 habitantes, sendo frequentada, na época balnear, por mais de 20.000 pessoas. Os melhoramentos locais tinham sido completamente abandonados pelas vereações do concelho da Feira, apesar do valioso subsídio com que a freguesia de Espinho concorria anualmente para o Estado e para o cofre da municipalidade". As receitas que a freguesia "gerava não tinham sido empregues, como era indispensável, para se dotar aquela praia com todos os benefícios que há muito reclamava, para receber condignamente as milhares de pessoas que anualmente ali passavam a estação balnear".
Dez anos após a elevação a freguesia, o decreto-lei de 17 de Agosto de 1899 veio ao encontro das reivindicações espinhenses criando o novo concelho que apenas englobava a área da sua freguesia. No ano seguinte à emancipação administrativa, Espinho "foi abastecido de água e as ruas foram limpas e arvorizadas; pagou-se o alargamento e as cancelas da passagem de nível da rua Bandeira Coelho; levantou-se a planta geral do concelho, restaurou-se a escola do Conde Ferreira, para a qual foi nomeado um novo professor. Conseguiu-se um novo edifício escolar orçado em 4.100$000 réis - o melhor do distrito. Iluminou-se a povoação, inclusivé a luz eléctrica na época balnear". Assim, nos primeiros quinze anos de autonomia administrativa, a praia de Espinho, localizada no extremo norte do distrito de Aveiro e a menos de 20 km da cidade do Porto, teve um rápido desenvolvimento, sustentado pela importância da praia como pólo fundamental de atracção turística.